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JÚ MARTINS ENTRE MARIO PUZO, THE GODFATHER, OMERTÀ E O MPLA: O PODER DO SILÊNCIO NUM REGIME DE MEDO

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JÚ MARTINS ENTRE MARIO PUZO, THE GODFATHER, OMERTÀ E O MPLA: O PODER DO SILÊNCIO NUM REGIME DE MEDO

“Com base nos romances O Padrinho e Omertà, de Mario Puzo obras notáveis e de grande sucesso de vendas que abordam temas como poder, silêncio, lealdade e manipulação  este texto estabelece uma analogia simbólica com a realidade política angolana. Ele conecta os bastidores do MPLA, a influência de Jú Martins e os mecanismos de controle utilizados por sistemas que se apoiam mais no medo do que na legitimidade.”

Em O Padrinho, Mario Puzo revela que impérios de longa duração raramente se mantêm apenas pela força bruta; eles se firmam principalmente pela organização interna, pela concessão estratégica de benefícios, pela gestão da fidelidade e pela formação de uma teia onde todos gravitam em torno do núcleo central. Essa perspectiva auxilia muitos analistas a compreenderem a trajetória do MPLA, partido que governa Angola há décadas e que, para grande parte da população, deixou de servir como um meio para o desenvolvimento do país, tornando-se uma estrutura para manter privilégios. Assim como nas famílias mafiosas descritas por Puzo, a liderança oficial é apenas um aspecto da estrutura: há sempre um grupo restrito que delibera sobre indicações, percursos profissionais, sanções e gratificações. A população observa eventos públicos, assembleias e pronunciamentos; contudo, as decisões cruciais são tomadas nos bastidores. Nessa conjuntura, Jú Martins é visto como um articulador discreto, cuja capacidade política provém não do apoio popular, mas da ascendência que detém nos círculos onde o futuro da nação é decidido sem real participação dos cidadãos.

Em Omertà, Puzo explora detalhadamente o silêncio como uma ferramenta de poder. O termo que intitula o livro simboliza o código de conduta da máfia italiana do sul: não delatar, não contestar a liderança, não colaborar com autoridades externas e priorizar o coletivo acima de princípios éticos. Quando aplicada de forma simbólica ao contexto político, essa ideia ilustra regimes onde o temor suplanta a liberdade e a submissão se sobrepõe à moralidade. Muitos angolanos assinalam exatamente essa situação no cenário controlado pelo MPLA: membros do partido que calam para preservar-se, servidores públicos que obedecem para conservar seus cargos, órgãos que relutam em desafiar o poder central e cidadãos que ao longo do tempo perceberam que divergir pode acarretar perda de chances, segurança ou respeito. Assim, o silêncio deixa então de ser mera cautela e se converte em instrumento de repressão. Nessa perspectiva, Jú Martins surge como um exemplo de uma cultura política na qual a discrição equivale a grande influência, e onde a falta de exposição pode ser mais valiosa do que qualquer cargo oficial.

Ambas as obras também demonstram como regimes restritos manipulam a percepção de legalidade. Em O Padrinho, as deliberações são feitas em segredo e posteriormente divulgadas como inquestionáveis. Em Omertà, a transição de poder é arquitetada antes de ser tornada pública. O mesmo modelo é muitas vezes observado por analistas das eleições em Angola e dos procedimentos internos do MPLA: resultados que parecem antecipáveis, aparatos administrativos controlados pelo partido, órgãos públicos vistos como extensões do governo, e o governo assimilado ao próprio Estado. Quando a disputa política se manifesta apenas na aparência e não na essência, estabelece-se uma enganação mais profunda do que a mera alteração de números  a burla da expectativa popular. O indivíduo é convocado a tomar parte num cenário cujas normas já foram estabelecidas pelos detentores do controle. Nesse contexto, personalidades como Jú Martins representam a arquitetura dessa perpetuação, a habilidade de reformular discursos sem alterar as bases, de trocar figuras sem modificar os métodos, de preservar o poder pela coesão interna enquanto se anuncia uma modernização externa.

Mario Puzo também nos mostra que nenhum regime autoritário se mantém somente pela astúcia estratégica; ele se apoia no temor social. O receio de perder o emprego, o temor de expressar-se, a apreensão de ser alvo, a hesitação em confrontar um sistema maior que a própria pessoa. Ao longo de anos, o MPLA tem sido acusado por seus adversários de empregar o poder estatal, os meios públicos e a influência institucional para criar precisamente essa atmosfera: uma sociedade onde muitos se submetem não por crença, mas por apreensão. Conforme nos livros, a repressão contemporânea nem sempre se revela por agressão direta; frequentemente surge através da exclusão direcionada, da restrição de oportunidades, da manipulação da informação e da intimidação velada. Jú Martins, conectado à estrutura do partido, torna-se assim um emblema desse procedimento refinado: governar com discrição, determinar sem manifestar abertamente, liderar sem arcar integralmente com as consequências políticas das escolhas.

Contudo, tanto O Padrinho quanto Omertà acabam por expor a vulnerabilidade inerente a qualquer sistema construído sobre o medo e o sigilo. A fidelidade obtida por conveniência enfraquece diante de adversidades. O mutismo forçado converte-se em descontentamento reprimido. A obediência irrestrita gera falhas imperceptíveis. Nenhuma estrutura  seja um clã mafioso ou um partido governante perdura indefinidamente ao perder a crença de seus apoiadores. Angola encontra-se nesse ponto crucial. Uma geração jovem mais consciente, uma comunidade mais atenta e uma lembrança coletiva exausta de promessas não cumpridas questionam os antigos modelos de gestão. Se Jú Martins simboliza a persistência de uma política obscura e se o MPLA persiste em manter mecanismos de controle que muitos veem como ilegais, então o dilema central da nação transcende a esfera eleitoral: é uma questão civilizacional. Consiste na decisão entre permanecer sob o domínio do receio ou finalmente iniciar uma era de responsabilidade democrática e transparência pública.

Henda Ya Xiyetu
Criador de Opinião | Opinion Maker | Créateur d’Opinion .

“As opiniões expressas são pessoais e visam provocar reflexão crítica e construtiva sobre temas que impactam a nossa sociedade.“

Agita News Oficial

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